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Esforço recompensado: conheça empresas que driblaram as dificuldades para inovar
Faltam investimentos e sobra burocracia no Brasil para quem deseja criar produtos inovadores. Apesar disso, muitas empresas têm superado os obstáculos para se posicionar num mercado cada vez mais competitivo. Leia na primeira parte do especial O Brasil que Inova

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Mais de uma década passou até que Márcio Sequeira conseguisse tirar o projeto Mola do papel. As portas que se fecharam para o arquiteto eram de grandes indústrias, bancos, instituições governamentais, investidores. Cobravam histórico de uma empresa que sequer nascera, garantias que ele não tinha. Diziam que o produto era legal. E só. Mas o kit que ele desenvolveu para simular estruturas de construções, primeiro com madeira, depois com molas e ímãs, era um frisson entre professores, universitários, engenheiros e arquitetos no mundo inteiro. “Toda vez que eu pensava em desistir, acontecia algo que me fazia seguir em frente. Pensei que ia me arrepender se eu não tentasse”, conta Sequeira.

Até o dia em que ele conheceu o financiamento coletivo, o conhecido crowdfunding. A proposta era arrecadar R$ 50 mil para financiar 150 kits. Em três dias, Sequeira bateu a meta. A bem da verdade, em três dias ele arrecadou R$ 603.064,00 de doadores de mais de 30 países e se tornou a maior campanha de crowfunding do Brasil.

ALTERNATIVA – Passados três anos desde que Sequeira lançou a campanha meteórica, sua criação é usada nas salas de aula do Massachusetts Institute of Technology (MIT), uma das mais respeitadas universidades do mundo.  O paraense de 37 anos estampou páginas de publicações internacionais especializadas em design e arquitetura, como a Wired US, Wired Japan, Arquidaily, entre outras. “O financiamento coletivo é uma ferramenta fantástica para lançar uma ideia nova e viabilizar projetos que dificilmente receberiam apoio dos instrumentos tradicionais. Além disso, é uma plataforma de visibilidade para lançamento de produtos novos”, afirma.

A história da Mola se repete nos versos de tantos, senão todos, empreendedores brasileiros. Inovar no Brasil é difícil, mas há vitórias mais frequentes do que podemos imaginar. Estão espalhadas em todas as regiões brasileiras, como mostra o infográfico:

Se, no geral, o cenário brasileiro desafia quem quer inovar, há ecossistemas que dobram essa lógica. O de Florianópolis, capital de Santa Catarina, é um deles. A cidade vem se consolidando como um polo de inovação bem sucedido, em que os atores resolveram falar a mesma língua. Universidade, governo e indústria atuam em maior sinergia. O estado apostou na vocação para tecnologia e desenvolveu parques tecnológicos, instrumentos estaduais de fomento à inovação. Hoje, atrás de São Paulo, Florianópolis é considerada a cidade mais inovadora do país.

Na contramão do que se vê na maior parte do país, a capital catarinense tem um sistema fluido e integrado de desenvolvimento de tecnologia, que, em 2015, movimentou quase R$ 15 bilhões apenas dentro do estado. “Aqui, todo mundo trabalha junto. Universidade, incubadoras, indústria e estado dialogam muito. Talvez, por isso, o ambiente da inovação tenha se desenvolvido mais rápido. Além disso, como a ilha não permite atividade industrial tradicional, o empreendedorismo foi incentivado”, explica Silvio Kotujansky, vice-presidente de mercado da Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia (Acate).

Uma das apostas da Acate é o Link Lab, cuja proposta é aproximar grandes empresas de startups. O espaço, dentro da Acate, comporta oito salas para abrigar grandes e médias empresas e 70 postos de trabalho para startups que desenvolvem soluções tecnológicas de ponta para resolver problemas do mercado corporativo. Entre as empresas que vão participar, estão Ambev e a Engie. “Empresas gostam de problemas. E problemas não faltam para serem solucionados”, diz Silvio.

FINANCIAMENTO DESBUROCRATIZADO – Inovação é risco. Pesquisa e desenvolvimento exigem laboratórios, recursos, pessoas preparadas. Desde que foi criada no seio da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), em 2013, a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) tem sido uma saída para empresas de todos os portes dividirem riscos e conseguirem recursos para tocar projetos de inovação e tecnologia de maneira mais simples e rápida.

Por meio de chamadas de projetos, a Embrapii aporta ⅓ dos recursos, e, ao credenciar centros e institutos de pesquisa públicos e privados, serve de elo entre a indústria e a academia. Os demais ⅔ são divididos entre a empresa e o instituto que ajudará a desenvolver o projeto.

De acordo com o presidente da Embrapii, Jorge Guimarães, ao compartilhar riscos de projetos com as empresas, a partir da divisão dos custos do projeto, a entidade estimula o setor industrial a inovar mais e com maior intensidade tecnológica, o que é fundamental para potencializar a competitividade das empresas. “Hoje, grande parte do problema da falta de investimentos em inovação no país decorre do fato de as empresas não terem centro de P&D. São raras aquelas que têm centros de pesquisa”, destaca Guimarães.

“Na Embrapii, oferecemos aquilo que a empresa precisa e não tem, que é um centro de P&D. Com isso, todos têm a ganhar. Esse é um fator importante, pois a universidade tem vários recursos, mas não faz a inovação final, o que é um papel da empresa”, acrescenta. Hoje, a Embrapii conta com 42 instituições credenciadas, apoiou 239 projetos e investiu R$ 343,4 milhões em inovação.

MAIS DA SÉRIE: Leia todas as reportagens do especial O Brasil que inova:
1- Esforço recompensado: conheça empresas que driblaram as dificuldades para inovar
2- Inovação no Brasil vai na contramão do mundo
3- CNI, SENAI, SESI e IEL colaboram com políticas inovadoras para o país

Por Ariadne Sakkis e Diego Abreu
Edição: Aerton Guimarães
Foto: Miguel Ângelo/CNI
Da Agência CNI de Notícias